30 de jan de 2013

Conto #2

Melhor Amor.

Ela era jovem, vinte e poucos anos, razoavelmente bonita. Conheceu Guilherme ainda na escola, e, desde então, nunca mais foi a mesma. A alegria era ele, a calmaria e o porto seguro.

Mas um dia deixou de ser assim. Anos de namoro, e Guilherme decidiu que não queria mais. Chamou-a para uma conversa, disse que ela era especial, mas que não estava mais dando certo, que queria dar um tempo. E deu. Sumiu, não ligou mais, não retornou as ligações. Evaporou.

Para ela, foi um baque. Não esperava. É verdade, vinham tendo alguns problemas. Discutiam, brigavam, queriam coisas diferentes. Algumas amigas até falavam para ela abrir os olhos, que Guilherme há tempos andava pulando a cerca por aí, mas ela  não conseguia acreditar. Ela admitia que as coisas não eram mais tão coloridas como no começo do namoro, mas tinha certeza de que podiam ajeitar tudo. Porque Guilherme ainda era sua alegria, sua calmaria e seu porto seguro.

Sem ele, sentiu-se vazia, oca. Doía o coração dentro do peito, dor que transbordava pelos olhos em lágrimas sem fim, em conversas pelas madrugadas com as amigas. Doía a falta de rumo, o medo da solidão.

Mas não por muito tempo. Resolveu que ainda podia ajeitar as coisas, mudar, tornar-se a mulher que Guilherme sempre desejou. Iria reconquistá-lo - e, com ele, sua alegria.

Acordou naquela manhã e olhou-se no espelho, o rosto inchado, os cabelos bagunçados. Tratou de se arrumar. Lavou, hidratou e escovou os cabelos, cuidou da pele, perfumou-se, fez as unhas, colocou sua roupa mais bonita. Sentiu-se melhor.

Parou de gastar as noites em claro chorando, resolveu se distrair. Comprou aqueles livros que estava querendo há tempos e encontrou tempo para lê-los, assistiu novos filmes deitada na cama com um pijama de flanela até altas horas, e, de vez em quando, presenteava a si mesma com um brigadeiro de panela.

Dedicou-se com mais afinco ao trabalho, agora que tinha mais tempo livre, e começou a se destacar. Resolveu entrar para uma academia, perdeu uns quilinhos. Começou as aulas de canto que sempre quis fazer, mas que Guilherme nunca apoiou porque achava bobagem.

Voltou a sair com as amigas, coisa que praticamente não fazia mais desde o começo do namoro. Cinema, teatro, restaurante, festinha. Teve aquele dia em que apenas foram à cafeteria comer brownie com sorvete de creme e riram até doer a barriga. Ou aquela vez em que foram a um barzinho e um rapaz bonito de olhos verdes veio tirá-la para dançar.

Cortou os cabelos e fez luzes - Guilherme não gostava que ela mudasse o corte, mas sentiu-se mais bonita mesmo assim. Passou mais tempo com a família, gastou um dia de folga fazendo trabalho voluntário num orfanato. Viajou. Conheceu gente nova. Começou a frequentar uma igreja. E quando percebeu, sentia-se feliz. O tempo passou, serenou.

E então, meses depois, aconteceu. Tinha ido àquela festa com as amigas, e lá estava ele, bonito como sempre. O coração disparou. Guilherme encarou-a e sorriu. Não tirava os olhos dela, foi chegando de mansinho. Puxou conversa, disse que ela estava diferente, mudada. Flertou. Perguntou se podia telefonar, e ela concordou.

Guilherme ligou no dia seguinte, marcaram um encontro. Lá veio ele, bonito, cheiroso, charmoso. Passado pouco tempo, foi direto ao ponto: "Não sei onde estava com a cabeça, fui um louco em te deixar. Você é incrível, especial, e eu nunca te esqueci. Volta pra mim..."

Ela o encarou com olhos brilhantes. Era isso. Era o momento pelo qual tinha esperado durante todo aquele tempo. Sentiu-se triunfante, conseguira trazê-lo de volta. Ali estava ele, sua alegria, tudo o que ela sempre quis.

Entretanto...

Olhou-o bem. É o mesmo Guilherme de sempre que estava a sua frente, atraente, divertido, que chama a atenção por onde passa. Mas também é o mesmo Guilherme que acha aula de canto uma bobagem, que não se conteve em comentar que preferia o cabelo dela como era antes. O mesmo Guilherme que provavelmente pulava a cerca quando namoravam, o mesmo com quem discutira, brigara, e que queria coisas diferentes. Em essência, o mesmo.

Mas ela não era mais a mesma.

De repente, soube com absoluta clareza o que dizer. Com um discreto sorriso nos lábios, respondeu:

- Não.

E deu meia volta, deixando um Guilherme um tanto aturdido para trás, ainda sorrindo consigo mesma e um tanto surpresa. Porque no afã de ser a mulher que ele queria, acabou se tornando a pessoa que sempre quis ser. Sua própria alegria, sua calmaria e seu porto seguro. Percebeu que tudo o que precisava sempre esteve bem ali, a seu alcance.

Ah, havia descoberto para si um amor melhor que o de Guilherme ou outro do tipo - o amor próprio.

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